Ela sempre soube que o oceano não era grande o bastante para conter seus sonhos.

Enquanto suas irmãs se reconheciam nas marés, ela carregava uma inquietação antiga. Encantava-se com objetos esquecidos no fundo do mar após naufrágios provocados pelo canto das próprias sereias: bússolas que ainda giravam sem rumo, mapas manchados, fragmentos de mundo que pareciam chamá-la pelo nome. Esses vestígios despertaram uma curiosidade que o oceano não conseguia conter.

Foi através deles que ouviu falar do lago.

Dizia-se que, na floresta mística, existia um lago onde a água doce encontrava o mar sem se dissolver por completo. Um lugar antigo, guardado por um espírito que concedia desejos, desde que o preço fosse aceito com plena consciência.

Movida por essa inquietação, ela seguiu o curso das águas até a borda da floresta. Ali, diante do guardião enraizado no tempo, fez seu pedido. Queria caminhar entre mapas e estrelas. Queria viver as histórias que só conhecia pelos destroços.

O feitiço veio na forma de um colar. Enquanto o usasse, teria pernas. Mas havia uma condição clara: o contato com a água salgada revelaria sua verdadeira natureza. Não quebraria o encantamento, mas exporia o risco. E, todo verão, ela deveria retornar ao lago para renovar o feitiço.

Mesmo assim, ela aceitou.

Não foi difícil encontrar uma tripulação. Difícil foi conquistar confiança. Piratas são desconfiados por natureza, e uma sobrevivente de naufrágio sozinha sempre levanta suspeitas. Ainda assim, algo nela passou despercebido. Talvez o jeito atento. Talvez o silêncio na hora certa.

A capitã do navio, uma mulher de olhar firme, foi quem decidiu mantê-la a bordo. Sob seu comando, o mar se tornava menos imprevisível. Foi ali que ela aprendeu a navegar, a ler estrelas, a escutar o vento e a existir fora da água.

As viagens foram longas. Entre portos esquecidos, tempestades repentinas e noites em claro, ela viveu histórias que não dependiam de canto algum.

Até o dia do acidente.

Uma manobra mal calculada, o convés molhado, o corpo lançado ao mar. A água salgada tocou sua pele e, por um instante impossível de esconder, sua forma de sereia emergiu. O medo veio rápido, esperando o pânico, a captura, o fim.

Mas ela não estava sozinha.

A capitã havia visto tudo. Sem palavras, lançou-se à água e revelou o mesmo segredo: outra sereia que escolhera a terra, os mapas e o risco.

Duas guardiãs de segredos. Duas escolhas improváveis. O acordo nasceu no silêncio.

Dali em diante, navegaram juntas. Nenhuma outra alma da tripulação jamais soube. O mar guarda bem o que lhe pertence.

Quando o verão chegava, ela retornava ao lago da floresta para renovar o feitiço. Suas irmãs nunca compreenderam totalmente sua escolha, mas sempre a acolheram, sentadas à beira da água doce, ouvindo histórias de navios comandados por mulheres, de perigos evitados por intuição e de amizades nascidas do segredo compartilhado.

Com o tempo, ela entendeu que não precisava escolher entre o oceano e o mundo. Alguns seres nascem para habitar os limiares. Para ir e voltar. Para viver histórias e transformá-las em memória.

É por isso que toda história que nasce aqui se transforma em aroma, para não ser esquecida. Afinal, ser fiel aos seus sonhos exige coragem.